Amarelo é o teu sorriso
Ele e o vento esperam por ela, no sítio combinado.
É Verão mas a tarde anuncia uma noite fria (ele pensa algo do género enquanto o céu derrete para um cinza assustador).
Sentado nas escadas que conduzem à feira, é interrompido por todos os que voltam da praia e trazem consigo os seus salpicares de areia e água, crianças aos berros, arfares de cansaço.
É um local bastante escondido à primeira vista. Quem passasse pelo caminho estreito e sinuoso tinha de estar atento para não o pisar e os mais absortos nem reconheceriam a existência do rapaz de cigarro na boca, sentado a olhar para o vazio mas gravemente atento a tudo o que se mexia.
Aquele final de dia tristonho afogava-se em noite isolada e, da mesma forma que a pouca luz teimava em desaparecer, desapareciam também os cigarros que imploravam por mais nervosismo que oferecesse mais calor e mais nicotina, quando o que deveria ter trazido era uma garrafa de água para acalmar o peso que agora sentia no peito.
Como é que tinha chegado ali?
.
.
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Não sabia.
Tudo parecia um sonho conduzido por melancolia dormente, e numa outra situação já teria reclamado da dor que a pedra fria lhe injetava nas costas. O nervosismo era tal que parecia nem sequer estar sentado.
leviTava descompassadamente e só agora sentia uma ligeira impressão nos ombros. A dor de estar no mesmo sítio, na mesma posição, há demasiado tempo.
Talvez um cigarro ajude, pensou, e tirou o maço de Camel Activate do bolso direito.
A cor azul brilhou por dois segundos, refletindo o raio de luz fosca e amarelada que o candeeiro de rua mais próximo vomitava para o ar. Dentro do maço estavam os três últimos cigarros e o isqueiro vermelho da Bic que ele jurava usar há mais de um ano.
A língua desértica humedeceu-lhe os lábios. Não gostava de sentir o cigarro áspero na boca.
Acendeu o isqueiro imortal e deixou que a primeira inalação durasse o máximo que conseguisse. E por ali ficou.
O cigarro dançava entre o polegar e o indicador da mão direita. O olhar focado no céu azul escuro que era mais noite que dia, com a lua cortada bem lá ao fundo. Pensou por um milésimo de segundo que ela estava mais do que atrasada, algo que não a caracterizava, antes pelo contrário. Mas a distração que lhe inunda a mente desde sempre fê-lo virar os olhos para o candeeiro que ainda há pouco lhe refletia o maço.
"Como é que alguém foi capaz de escolher esta cor?", pensou. "É a cor mais nojenta que já vi em toda a minha vida", e sugou mais um pouco de fumo.
A verdade é que aquela cor destoava totalmente de tudo o que se passava à sua volta. O vento acariciava as dezenas de árvores de copas enormes; os animais da noite começavam a acordar e ouviam-se à distância, perdidos por entre a escuridão; as ondas do mar, muito mais selvagens do que à tarde, colidiam com a praia e as suas rochas, formando sons macabros mas maravilhosos. Um cenário perfeito, retirado de um filme.
E depois havia aquela cor.
Aquele amarelo cor de lixo tóxico que transformava tudo o que tocava num vómito abstrato.
O que mais irritava o rapaz era que todos os outros candeeiros de rua emitiam uma luz branca e encantadora. Lançavam para o ar um nevoeiro limpo que encaixava perfeitamente com a noite.
Todos menos aquele, o que estava exatamente por cima dele e que o pintava de cima a baixo.
Queria destruir aquela luz. Apagar a monstruosidade que esborratava o que poderia ser um dos sítios mais simplisticamente mágicos onde já tinha estado.
Apagou o cigarro na terra levemente molhada pela humidade e magoou-se. Reparou que ao lado da sepultura que escolheu para o seu antepenúltimo cigarro, se encontrava uma das pedras mais grotescamente afiadas que já tinha visto. Era grande e sem qualquer piada mas a ponta aguçada onde terminava aquele corpo imóvel chamava a atenção.
O cérebro do rapaz fez a ligação com uma rapidez estonteante.
Pedra - Luz ... Luz - Pedra
Olhou para a mão direita e reparou no fio de sangue que viajava do indicador para a palma e mais vontade teve de atirar aquela pedra estúpida contra aquela luz estúpida e acabar de uma vez por todas com aquela estupidez.
Hesitou por momentos
Olhou à volta
Ninguém
Pegou na pedra e sentiu o frio da terra onde estava enterrada. Era mais pesada do que parecia.
Esperou um último momento que pareceu durar minutos mas, quando cruzou novamente o olhar com aquela luz, sentiu que tinha de o fazer.
Atirou-a.
A pedra foi atirada com mais força do que previamente imaginado e passou mesmo ao lado do candeeiro, que permaneceu sorridente e amarelado.
"A sério?", pensou, "Nem para isto sirvo". E ouviu a pedra cair algures no meio da escuridão, no final das escadas que levavam à feira.
Arrepiou-se.
Embora a pedra não tivesse tocado de forma nenhuma no candeeiro, este acabava de se apagar.
Ficou alguns segundos com o bater do coração nas costas, ao mesmo tempo que a visão se adaptava à escuridão acabada de se instalar. A cada batida o cenário parecia ganhar mais luz e cor mas ainda assim não se via quase nada.
Os cigarros continuaram a desaparecer.
A luz nunca mais voltou.
Permaneceu sentado durante tanto tempo.
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.
Era tarde, demasiado tarde. E ela não tinha chegado. Como estava sem bateria no telemóvel não havia forma de saber onde é que ela poderia estar naquele momento. Pensou que talvez não tivesse sido uma boa ideia todo aquele plano orquestrado para estar sozinho com ela, para tentar fazer com que tudo resultasse de novo. "Arrependeu-se e não veio...de certeza que tenho uma mensagem no telemóvel a pedir desculpas e a justificar-se do porquê de ter tido uma mudança de pensamento".
Já não havia mais cigarros, já não havia mais luz, já não havia mais motivos para espera incontrolável.
Já não se levantava há horas e quando o fez sentiu uma tontura do tamanho do mundo. Fechou os olhos com força e viu pontinhos brancos a voarem da direita para esquerda, de cima para baixo.
Suspirou. "Tentaste", e começou a descer as escadas que davam para a feira.
A cada degrau que descia sentia-se mais acordado para a realidade do que no degrau anterior. Eram tantos que faltavam que temia chegar à rua lá em baixo e descobrir segredos sobre o mundo.
Quando faltava uma dezena, conseguiu ver por entre a escuridão vários vultos que saltavam de um lado para o outro. Cães ou gatos. Estavam todos juntos numa roda que se partia quando um decidia mandar o maior salto de sempre.
Nunca tinha gostado de gatos mas teria que engolir o gosto (ou a falta dele) por momentos pois não dava para evitar passar pelos felinos, que ocupavam aquela parte da rua.
Quando se aproximou, tentando ao máximo camuflar-se com o que o rodeava, toda aquela roda animalesca se desfez em correrias desalinhadas e trapalhonas.
Ou quase toda. Já que dois ou três decidiram ficar imóveis.
Que gatos enormes.
São gatos que
Eles
.
.
Um aperto no peito, seguido de uma falha nas pernas.
E nunca mais aquela imagem cravejada no seu cérebro desapareceria.
À sua frente, no caminho que levava à feira.
Fria, no chão frio, jazia a pessoa por quem havia esperado a noite inteira.
Sangue que coalhava e se espalhava pelo chão, guiado por um rasto que terminava numa pedra aguçada sem piada nenhuma.
A luz reacendeu.
Era branca, desta vez.
"Estou a caminho, bebé. Tens toda a razão, já perdemos demasiado tempo com discussões! Amo-te".
Foi a mensagem que recebeu mais tarde quando carregou o telemóvel, poucos minutos depois de ter enterrado o corpo.

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